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A Ameaça dos Mitos na Política

Atravessamos um momento decisivo no Brasil, onde qualquer erro poderá representar uma crise ainda maior e de conseqüências muito mais graves. O Brasil está na encruzilhada do caminho e a dificuldade maior é a fragilidade generalizada. Temos instituições cambaleantes, Justiça ameaçada, incertezas de valores morais e cívicos.

Precisamos estar atentos e muito vigilantes, pois nesses momentos é que aparecem os oportunistas, os vendedores de sonhos e os “Salvadores da Pátria”. Para completar o cenário, estamos na página da decadência do poder público e dos seus agentes. Por conseqüência intensificamos o folclore político, com mitos e “verdades”. Definitivamente somos um povo de fé e que acredita em tudo.

É a hora em que equivocadamente e carentes, clamamos por mitos. O equivoco começa pelo uso da palavra “mito”, dando-lhe uma vestimenta positiva, como se representasse a esperança. Mito, palavra de origem grega, tem significado específico, que simplificando representa uma miragem, algo aparente, mas inexistente. Os mitos se utilizam de muita simbologia, personagens sobrenaturais, deuses e heróis. Representam lendas, os anseios da fantasia, mas, não são verdadeiros.

Em momentos críticos, de intensa dificuldade emocional, clamamos por soluções idealizadas, pelo desejo de auto-proteção e sobrevivência. Nessas horas tendemos a criar ideais e as figuras dos mitos aparecem. É como se pudéssemos depositar as nossas dificuldades numa espécie de “divindade humana” - se assim possível fosse. Seria por nas mãos de um Saci, do Curupira, Boi Tatá ou Sereia, a resolução dos nossos problemas mais urgentes. 

Não existe solução mágica, e transformações, especialmente de convívio social e econômico, só se realizam através do equilíbrio e das propostas negociadas, onde podem contemplar o maior número de pessoas interessadas. Para isso é preciso, calma, perspicácia, poder de aglutinamento, convencimento, de pulso forte, mas, sem perder a ternura.

Os mitos se dissolvem rápido pela própria inconsistência; e entregar os nossos destinos nas mãos de mitos, é suicídio coletivo.

Já vivemos momentos parecidos, embora de gravidade menor, mas que nos conduziu a eleger para presidente Fernando Collor de Melo. Apresentava-se como a figura da transformação, da esperança e da moralidade. Iria caçar os “marajás dos salários” e resolver a vida dos descamisados. Todos lembram bem o fiasco, desde o início com o confisco brutal da nossa poupança. Era tudo mirabolante e inconsistente, pois não tinha preparo e nem estabilidade emocional para realizar tais tarefas. O final todos sabemos...

Um dos mitos mais utilizados nessa eleição vindoura é a existência e uso dos chamados “não políticos”, empresários que podem mudar tudo e salvar o país. Grande mentira e mito perigoso. A administração pública é inteiramente adversa à administração empresarial. Numa empresa, o mandatário faz o que deseja e tem muito poucos para explicar a decisão tomada. Governar não se faz sozinho e a mecânica existente, como as leis de responsabilidade fiscal, orçamento anual, verbas destinadas, etc., impedem tomadas de decisões solitárias. O governante precisa de apoio político de deputados e senadores para que aprovem suas propostas e mudanças. Se não tiver um amplo espectro de convencimento, liderança e poder de negociação, não vai poder fazer nada. A menos que este governante decida, sabe-se lá com que apoio, dar um golpe armado e governar por decretos. Fecha-se o Congresso e os Tribunais de Justiça, quebra-se o principio do equilíbrio entre poderes, e assim, estaremos sendo governados por um ditador. E de sua cabeça jamais saberemos o que ele pode fazer. Viramos reféns. Estabelece-se a insegurança jurídica, a inexistência do equilíbrio democrático, e daí, seja o que Deus quiser...

É preciso pensar bem na hora do voto. Governar o Brasil de tamanha dimensão é preciso muito conhecimento do funcionamento da máquina pública, capacidade de escolha dos auxiliares especialistas e vontade política, sem exageros e egos autocentrados.

O Brasil precisa de um grande gestor para não cair na tentação do confronto armado. Custaria muitas vidas, e quase sempre daqueles que não poderíamos perder. O Brasil é real e é nosso. Não podemos por impulso e rejeição a outros enganadores, transformá-lo num Mito. Se assim, for, adeus Brasil!


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